Escadas
Abril 29, 2008
Escadas rolantes são o marco zero do desenvolvimento de qualquer cidade (menos as americanas – lá, escada rolante é esporte). A divisão de águas entre uma cidade pequena e uma cidade média. Ainda presenciaremos gráficos num telejornal qualquer do tipo “porcentagem das cidades com escada rolante após a posse de tal político” como indicador positivo de crescimento.Digo, qual a real função de uma escada rolante? Se algum cadeirante precisa subir ou descer um nível, pegará o elevador; se alguém sem limitações físicas (preguiça é deficiência psicológica, tenha dó) precisar, existe aquele antigo invento que consiste em inúmeros retângulos (ou, ainda, placas de madeira/metal/mármore/vidro enclinadas sobre as outras formando ângulos de 90 graus), sobrepostos e estáticos: a escada comum. A américa gorda e desenvolvida deve culpar as escadas rolantes pela sua nada estática circunferência. Um levante, uma revolução! Queimem a sede da Otis e da Atlas Shindler ao invés das lanchonetes, oras. Nos Estados Unidos/Canadá, inclusive, há regras especiais para dar uma voltinha nesse “atraso” como não utilizar descalço ou quando não estiver em movimento (ou seja, quando simplesmente se tornar uma escada comum)… Todo esse trabalho, todas essas regras e aparatos de segurança porque um americano preguiçoso de Massachussets (diga-se o mesmo estado-origem do Dunkin’ Donuts – aquele que te deixa com formato de rosquinha), lá em 1859, teve preguiça de carregar os quitutes da semana escada acima.
Não me venha com “é uma facilidade da vida contemporânea” (é facilidade dar uma volta enorme porque essa porcaria fica do outro lado do estabelecimento?) porque não é. Só seria facilidade se os minutos de exercício evitados ao se escolher o caminho rolante ao longo da vida, não tivessem que ser convertidos em mensalidades de academia. Inclusive, acho irônico observar aquelas garotinhas de cursinho usando roupas academísticas (leia-se academia de ginástica) pegando a escada rolante para atravessar o shopping. Acho ainda mais bonito quando moram a 10 quadras da academia e ainda assim pegam um ônibus, descem em frente ao shopping, sobem pela E.R. (o que ainda vai acabar levando a uma E.R. de verdade) e ainda acham o máximo aquecer no Transport (aparelho de ginástica que, basicamente, te faz subir infinitamente uma escada invisível) antes do exercício.
Minha casa, por exemplo, toscamente descrita, é um empilhado de escadas (comuns!). Não vou negar que é massacrante chegar de um longo dia na rua, meio grogue e ter que me arrastar 32 degraus acima (isso quando não esqueço o celular e desço para buscar), mas no fundo não é tão ruim, entende? (isso quando não esqueço alguma luz acesa e tenho que descer mais uma vez) Eu já caio quase todo dia nas escadas comuns aqui de casa e, levando em consideração que sempre que boto um pé numa rolante, perco o equilíbrio, posso estimar a quantidade de cicatrizes e hematomas (que nunca foram poucos) que se acumulariam no meu corpo (não que ele seja pequeno, mas ia faltar espaço).
Não gosta de escadas comuns? Ótimo, pegue o elevador. Dos elevadores eu gosto, e muito.